Ata do COPOM mostra que Preocupações Pairam no Banco Central devido à Incerteza nos Mercados e à Expectativa de Inflação em Alta
O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) demonstrou apreensão diante das incertezas que permeiam os mercados e das projeções de inflação que excedem a meta estabelecida. Estes são fatores que influenciam a decisão do BC em relação à taxa básica de juros, a Selic.
Na reunião da semana passada, os membros do comitê atribuíram essa preocupação, em parte, à ansiedade dos agentes financeiros com relação à política fiscal que visa equilibrar as contas públicas do país.
“Após um período de parcial realinhamento, as projeções de inflação continuam sendo uma fonte de inquietação”, revela a ata da reunião, divulgada nesta terça-feira (26) pelo BC em Brasília.
“Entre as possíveis razões que poderiam justificar as expectativas de inflação acima da meta estão as preocupações no âmbito fiscal, os receios em relação à desinflação global e a percepção potencial por parte dos analistas de que o Copom, ao longo do tempo, poderia adotar uma postura mais flexível na contenção da inflação”, esclarece o documento.
O BC enfatiza que a redução das expectativas será alcançada por meio de “uma atuação determinada, em consonância com o objetivo de fortalecer a credibilidade e a reputação tanto das instituições quanto dos alicerces econômicos”.
O Copom avalia que parte da incerteza presente nos mercados, refletida nas expectativas de inflação, anteriormente estava mais relacionada à estrutura final do arcabouço fiscal, e agora está mais centrada na implementação das medidas de receita e despesa em conformidade com o arcabouço, bem como na consecução das metas fiscais.
No projeto do Orçamento para 2024, o governo federal planeja eliminar o déficit primário nas contas públicas, conforme estipulado pelo novo arcabouço fiscal. O Ministro da Fazenda, Fernando Haddad, já expressou que cumprir essa meta é um desafio, dependente do aumento da arrecadação.
“Dada a importância da execução das metas fiscais já estabelecidas para ancorar as expectativas de inflação e, consequentemente, para guiar a política monetária, o Comitê enfatiza a relevância da perseverança na busca dessas metas”, reforçou o colegiado do Banco Central na ata.
Inflação
Na semana passada, o Copom optou por reduzir a taxa Selic de 13,25% ao ano para 12,75% ao ano. A evolução dos preços levou o BC a baixar os juros pela segunda vez no semestre, em um ciclo que deve prosseguir com cortes de 0,5 ponto percentual nas próximas reuniões. Após sucessivas quedas no final do primeiro semestre, a inflação voltou a subir na segunda metade do ano, mas essa alta era esperada pelos economistas.
A taxa Selic é o principal mecanismo do BC para alcançar a meta de inflação, definida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN).
“O índice de inflação para o consumidor segue uma trajetória corrente mais benigna, evidenciando desaceleração tanto na inflação de serviços quanto nos núcleos de inflação. Os indicadores que agregam os componentes mais sensíveis ao ciclo econômico e à política monetária, e que possuem uma maior inércia inflacionária, apresentaram uma inflação menor, mas ainda permanecem acima da meta”, informou o BC.
Dessa forma, o Copom reforçou a necessidade de manter uma política monetária ainda restritiva para consolidar a convergência da inflação à meta em 2024 e 2025, bem como para ancorar as expectativas. A meta estipulada pelo Conselho Monetário Nacional para os próximos dois anos é de 3%, com uma margem de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo. Em outras palavras, o limite inferior é de 1,75% e o superior de 4,75%.
No momento da reunião do Copom, as expectativas de inflação para 2023, 2024 e 2025 estavam em torno de 4,9%, 3,9% e 3,5%, respectivamente. Esses dados são provenientes do boletim Focus, uma pesquisa divulgada semanalmente pelo BC que apresenta as projeções dos analistas do mercado para os principais indicadores econômicos.
Para 2023, já é prevista uma superação da meta, que é de 3,25%, mantendo a mesma margem de tolerância de 1,5 ponto percentual.
Em agosto – influenciado pelo aumento do custo da energia elétrica – o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) – considerada a inflação oficial do país – foi de 0,23%, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Esse índice é superior ao registrado em agosto do ano passado, quando houve uma deflação (queda de preços) de 0,36%. O IPCA acumula uma taxa de 3,23% no ano. Em 12 meses, a inflação acumulada é de 4,61%.
Juros Neutros
Em sua ata, o Comitê de Política Monetária do BC também expressou preocupação com a possibilidade de aumento da taxa de juros neutra.
“O enfraquecimento nos esforços de reformas estruturais, o aumento do crédito direcionado e as incertezas sobre a estabilização da dívida pública têm o potencial de elevar a taxa de juros neutra na economia, com repercussões adversas sobre a eficácia da política monetária e, consequentemente, sobre o custo da desinflação em termos de atividade”, declarou.
A taxa neutra é aquela que não estimula nem desestimula a economia, ou seja, é a taxa de juros real consistente para manter o nível de atividade econômica, promovendo o pleno emprego e mantendo a inflação na meta.
Quando o BC busca conter a demanda aquecida e controlar a inflação, ele eleva a taxa básica de juros acima da taxa neutra. Já para incentivar a produção e o consumo, o Copom reduz a Selic. Em um cenário de economia estável, com a inflação na meta, a Selic tende a ficar próxima da taxa neutra. Portanto, quanto maior for a taxa neutra, maior será a Selic.
De acordo com o último Relatório de Inflação do BC, a média da taxa de juros real neutra se encontra em 4,8%, com uma faixa entre 4,5% e 5%.
Projeções e Riscos
No que diz respeito aos próximos passos da política de juros, os membros do Copom concordaram, de forma unânime, que a expectativa de cortes de 0,50 ponto percentual na Selic nas próximas reuniões é o ritmo apropriado “para manter a política monetária contracionista necessária para o processo desinflacionário”. Da mesma forma, o BC afirmou, na ata, que é pouco provável que ocorram cortes mais significativos.
“Também se avaliou que não há indícios de que um aperto além do necessário para a convergência da inflação à meta esteja em curso, e que o cenário ainda requer cautela, reforçando a visão de equilíbrio e moderação que o Comitê tem defendido. O Comitê considera como pouco provável uma intensificação adicional do ritmo de ajustes, visto que isso demandaria surpresas positivas substanciais que elevassem ainda mais a confiança na perspectiva de desinflação”, diz a ata.
“Ressaltou-se que a duração do ciclo ao longo do tempo dependerá da evolução da dinâmica inflacionária, especialmente dos componentes mais sensíveis à política monetária e à atividade econômica, das expectativas de inflação, especialmente as de longo prazo, de suas projeções de inflação, do hiato do produto [capacidade ociosa da economia] e do balanço de riscos [para a inflação futura]”, acrescentou o BC.
As projeções de inflação do Copom são de 5% para 2023, acima do teto da meta, 3,5% para 2024 e 3,1 para 2025. Para fazer essas estimativas, o Banco Central adotou a hipótese de bandeira tarifária “verde” em dezembro desses três anos, além de uma taxa de câmbio partindo de R$ 4,9 e o preço do petróleo seguindo a curva ascendente pelos próximos seis meses e aumentando 2% ao ano posteriormente.
Na ata, o Copom destacou que permanecem fatores de risco em ambas as direções nos seus cenários para a inflação. Entre os riscos de alta para o cenário inflacionário e as expectativas de inflação, destacam-se uma maior persistência das pressões inflacionárias globais e uma maior resiliência na inflação de serviços do que a projetada devido a um hiato do produto mais apertado.
Entre os riscos de baixa para a inflação estão uma desaceleração mais pronunciada da atividade econômica global do que a projetada e os impactos de um aperto monetário sincronizado sobre a desinflação global que se mostrem mais fortes do que o esperado.
“A conjuntura atual, caracterizada por uma fase do processo desinflacionário que tende a ser mais lenta e por expectativas de inflação com parcial realinhamento, exige equilíbrio e moderação na condução da política monetária”, informou o BC.
Atividade Econômica
O Copom também avaliou uma série de indicadores recentes que indicam uma “maior resiliência da atividade econômica”. Superando as projeções, no segundo trimestre do ano, a economia brasileira cresceu 0,9% em comparação com os primeiros três meses de 2023, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em relação ao segundo trimestre do ano anterior, a economia brasileira avançou 3,4%.
O Produto Interno Bruto (PIB) – a soma dos bens e serviços produzidos no país – acumula um crescimento de 3,2% no período de 12 meses. No semestre, o crescimento acumulado foi de 3,7%.
Segundo o BC, nos indicadores setoriais, houve alguma desaceleração no setor de comércio, uma reaceleração moderada na indústria e uma estabilidade no crescimento do setor de serviços, após um ritmo mais forte nos trimestres anteriores. “O mercado de trabalho continua resistente, mas com alguma moderação na margem”, explicou.
Entre os fatores que contribuíram para o crescimento mais resistente nos últimos trimestres, o Copom citou que a “força do setor agropecuário” teve efeitos indiretos sobre outros setores da economia, “o que é comprovado pelos dados, embora não justifique completamente a magnitude da surpresa”.
“Outra possibilidade é que o aumento da renda disponível, seja devido ao dinamismo do mercado de trabalho, à queda nos preços dos alimentos ou aos programas de transferência de renda, também tenha fornecido algum suporte ao consumo. O Comitê se aprofundou nesse tema, identificado como muito relevante, e enfatizou que a perspectiva de um crescimento sustentado pelo aumento da renda é corroborada pela resistência no consumo de serviços das famílias. Além disso, discutiu-se, portanto, o possível impacto que poderia ocorrer sobre a dinâmica da inflação de serviços em caso de crescimento sustentado pela renda e pelo consumo”, explica a ata.
Fonte: agenciabrasil.ebc.com.br




